Ao assistir a “Apenas Coisas Boas”, a sensação é a de que são dois filmes em um. Toda beleza, sensibilidade, sonho, sensualidade e erotismo do início, transforma-se em um algo frio e calculista, e tudo que se admirava no começo desfaz-se em ódio e maldade no final.
Afinal, qual o propósito do diretor e roteirista Daniel Nolasco? Talvez mostrar que as coisas são simples apenas? Ou seja, que não há amor no ser humano, que o mal venceu, e que ninguém é feliz para sempre.
Cabe dizer que a primeira parte é, em muitos momentos e de certa forma, algo exagerado, beirando a clichês. Mas foi poética. Porém, uma questão que não pode deixar de ser pensada e debatida é se a arte necessita ser real. Visivelmente isso se misturou em tela. Se for real, deixa de ser arte? A insinuação não seria mais instigante?

Qual o limite do personagem e do ator? Então, o ator tem que se entregar e fazer tudo o que a personagem e o diretor pedem? Nesse caso, em alguns momentos, interpretar deixou de ser a arte do faz de conta.
É um conto erótico gay. A fantasia é o morador da roça, Antônio (Lucas Drummond), encontrar Marcelo (Liev Carlos), um motoqueiro sem destino e os dois viverem dias de amor e sexo. Um conto de fadas LGBTQI+ sem final feliz. Passados anos, todo romance é jogado na lama, seguindo pelo promíscuo cruel até o desfecho final.

Os estereótipos tornam-se fatos nessa segunda parte. Pode ser excitante para uns e depravado para outros. Não dá para saber ainda se essa exploração do grotesco ajuda ou atrapalha o longa.
A história não esclarece nada, promove as suposições, pede ao público que enxergue na marra as entrelinhas. O suspense é interessante, mas precisaríamos de mais pistas, e de uma conclusão, por mais misteriosa que fosse. Destaque para a naturalidade do ator Liev Carlos e a segurança de Renata Carvalho. A direção de arte e a fotografia são de grande valor.
“Apenas Coisas Boas” tem seu mérito. É uma bela obra, feita por profissionais talentosos. As críticas geradas, não desmerecem suas qualidades, são apenas para mostrar que o título cumpriu sua função de provocar.
por Carlos Marroco – especial para CFNotícias
*Título assistido em Sessão promovida pela Olhar Filmes.