Crítica: 100 Dias

Na história internacional da navegação a remo houve um fato importante. Em meados de 1984, o brasileiro Amyr Klink decidiu atravessar o oceano Atlântico Sul, unindo Lüderitz, na Namíbia, a Salvador, no Nordeste do Brasil.

Desde pequeno, ele teve uma relação muito estreita, aventureira e, por vezes, arriscada, com o mar. Isso se refletiria nos passos seguintes de sua vida. Dentre eles, destaca-se a travessia em uma embarcação a remo, que dá origem a “100 Dias”.

A proeza mencionada anteriormente tinha antecedentes: no Atlântico Norte, navegadores haviam tentado unir Nova York, na América, com o continente europeu, mas haviam fracassado, provocando mortes.

Klink se sentiu inspirado e, ao mesmo tempo, estudou cuidadosamente as causas desses desastres. Concluiu que não foram fatores climáticos adversos que os produziram, mas sim erros e falhas das próprias pessoas, em especial a falta de preparação.

Além disso, mesmo posteriormente, os navegadores do Norte nunca chegaram a completar a travessia por conta própria; sempre tiveram ajuda externa direta.

A trama se ocupa de narrar em detalhes essa façanha de Klink, começando com as preparações para cumprir o objetivo: discussões ou conversas com um especialista em pequenos navios para solucionar o problema de virar e desvirar a embarcação – o que poderia acontecer durante a travessia; com uma nutricionista, que prepara cuidadosamente as refeições que ele deveria consumir nesse período; com a família, com o apoio da mãe e de um irmão e a rejeição do pai, e com um conhecido para construir a embarcação.

Segue-se a saída do porto de Santos, com sua canoa em um navio estrangeiro, até a chegada a Lüderitz e a consequente tentativa de retorno ao Brasil. Eis algumas reflexões de Klink: “Um dia é preciso parar de sonhar e é preciso atuar”; “O meu maior medo é nunca partir”; “Parti; agora só me resta remar no oceano”; “Não desistir; quando se começa não se deve olhar para trás”; “(O objetivo) não se atinge pela força e sim pela inteligência”.

Assim, o percurso é detalhado dia após dia. Uma vez sozinho, “entre o céu e o mar”, como diz o título de seu livro, a navegação traz diversos problemas: em especial na primeira semana, com uma fortíssima tempestade que se abateu sem trégua; depois, com o desafio de manter o rumo certo – para o qual conta com a ajuda de um radioamador que captou uma conversa do navegante com sua família.

A isso, acrescentam-se as mãos feridas de tanto remar, o frio, os acidentes – em especial a lesão em um dedo do pé, os muitos delírios que aparecem uma e outra vez, a necessidade de fugir dos tubarões que o assolam.

Porém, há pontos muito positivos: além dessa orientação e desse apoio por meio das comunicações, destaca-se, sobretudo, o acompanhamento e o apoio emocional da mãe e do irmão.

Essa sucessão de dificuldades que precisam ser vencidas, por um lado pode despertar a simpatia do espectador e, por outro, tornar-se cansativa. A boa fotografia de Rodrigo Monte, a edição acertada de Fernando Stutz – que alterna o presente com a infância/adolescência e outras situações – e a música do finlandês Tuomas Kantelinen se unem a uma exigente interpretação do personagem (feita por Filipe Bragança), à qual se somam os demais nomes do elenco.

O diretor Carlos Saldanha (indicado ao Oscar, em 2018, pela animação “O Touro Ferdinando”), alterna momentos em que a imagem basta para transmitir a situação, com outros de maior desenvolvimento narrativo, atingindo um final bastante comovente.

Amyr Klink resgata a aventura própria do ser humano, de superar a si mesmo e de lançar-se ao mar como um Ulisses, sempre com a promessa de um retorno. Não há uma Penélope, mas sim uma família que o aguarda.

“100 Dias” tem algumas irregularidades, mas o que permanece relevante e incontestável é a façanha realizada por pelo navegador / escritor, que ficou registrada na história da navegação.

por Tomás Allen – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Walt Disney Studios Br.