Crítica: Cara-de-Barro

Chega aos cinemas a mais nova produção baseada em um personagem de quadrinhos que promete transformar um vilão da galeria do Batman em uma figura memorável nas telonas. Cara-de-Barro é uma figura recorrente nas histórias do Homem-Morcego, mas até hoje não possuía uma relevância tão grande quanto o Coringa, por exemplo.

Essa situação mudará com o lançamento de seu filme solo, que resgata o estilo soturno e violento que só a DC Comics possui e, infelizmente, não estava sendo aproveitada em alguns dos títulos cinematográficos da marca na atualidade.

Acompanhamos a trajetória do famoso ator Matt Hagen (Tom Rhys Harries), que sofre grandes danos físicos e psicológicos após uma agressão do mafioso Markos Szabo (Eddie Marsan) que retalha o rosto da celebridade.

Durante o processo de cura, o protagonista busca a ajuda da geneticista Caitlyn Corr (Naomi Ackie), a fim de fazer parte dos estudos de um processo de regeneração ainda não aprovado para testes em humanos. O resultado, em um primeiro momento, é animador, mas com a passagem do tempo, o que parecia um verdadeiro milagre começa a se transformar em uma inesperada maldição.

Surpreendente e corajoso, “Cara-de-Barro” (Clayface) aposta em um roteiro que transporta para as telas de cinema a essência da DC, tão celebrada pelos fãs. Os roteiristas Mike Flanagan e Hossein Amini entregam uma narrativa que cativa do começo ao fim e nos transporta para uma versão de Gotham City muito próxima à das revistas.

Excepcional em capturar a essência do personagem e seus coadjuvantes, o longa conta com uma sucessão de cenas que ilustram a evolução de Matt Hagen em sua saga até transformar-se em algo monstruoso de corpo e alma.

Antes de “Cara de Barro”, Christopher Nolan (com sua trilogia do Batman) e Zack Snyder (com a versão estendida de “Liga da Justiça”) haviam, à sua maneira, capturado a natureza do universo DC Comics. Agora, o diretor James Watkins une-se ao seleto grupo de profissionais que compreenderam a estrutura deste mundo singular das histórias em quadrinhos.

A atuação de Tom Rhys Harries é fenomenal. Ele fornece a complexidade psicológica necessária para que seu alter ego possa transitar entre a lucidez e a loucura, de uma maneira que muito eficaz para representar onde está o homem e quando o monstro assume.

No final das contas, dá para afirmar que “Cara-de-Barro” é bem complexo. Ao apresentar momentos baseados em vingança, violência, suspense e terror, faz com que o público não fique parado na poltrona – e até mesmo desvie os olhos em alguns momentos de horror corporal mais explícito.

Aliás, a produção pode ser vista mesmo por quem não consome materiais originais da DC Comics, pois foi desenvolvida de uma maneira tão elegante e precisa, que a sua trama é rapidamente compreendida, sem a necessidade de explicações ou conhecimento prévio de arcos do Batman.

Não perca essa chance de assistir a uma obra cinematográfica que mostra que o lado mais sombrio da condição humana reside na decisão de justificar os nossos piores atos em nome da sobrevivência ou de um amor impossível.

por Clóvis Furlanetto – Editor

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.