
Quem somos quando retiramos as versões que construímos sobre nós mesmos? Em um tempo marcado pela exposição constante da vida privada nas redes sociais, a escritora, atriz, performer e terapeuta Luciana Palhares propõe um movimento inverso: voltar ao início.
Em “Ficção que chamo de eu”, obra que integra a coleção de plaquetes 2026 da Tato Literário, a autora revisita episódios da infância para investigar as origens da identidade, as perdas de inocência e os processos de interpretação que moldam a vida adulta.
A publicação reúne treze mini crônicas inspiradas em acontecimentos da primeira infância. Entre descobertas, assombros, incompreensões e pequenos traumas cotidianos, a autora constrói uma narrativa fragmentada que convida o leitor a ocupar os espaços deixados entre as lembranças.
O resultado é uma obra que transita entre a crônica, o conto e a autoficção, transformando experiências particulares em reflexões universais sobre família, pertencimento e formação subjetiva.
A origem do projeto surgiu após a mudança da autora para fora do Brasil. Depois de concluir “37”, texto em que refletia sobre a própria trajetória até aquele momento da vida, Luciana sentiu a necessidade de aprofundar sua investigação autobiográfica.
“Quando deixei o Brasil escrevi ‘37’, refletindo sobre a vida que levei até aquele momento. Senti necessidade de seguir na minha arqueologia pessoal. Comecei a lembrar das histórias marcantes. Fui buscar lá no início e fui colecionando as mini crônicas-causos que integram essa plaquete”, conta.
Mais do que recuperar lembranças, a autora utiliza a memória como ferramenta de compreensão. Para ela, as histórias reunidas no livro dialogam diretamente com as relações familiares e com a forma como reinterpretamos nossa própria formação ao longo da vida.
“Se houvesse uma mensagem, seria: nossos pais fizeram o que sabiam. O resto é interpretação e perspectiva”, afirma.
Um ritual de reencontro com a criança interior
Ao longo da escrita, Luciana percebeu que o projeto ultrapassava os limites da literatura e assumia também um papel de elaboração emocional. O processo incluiu não apenas a escrita dos textos, mas a gravação em áudio das histórias, criando uma experiência de escuta de si mesma.
“Esse livro é uma espécie de ritual de honra à minha criança interior. Escrever, me ler, depois gravar os áudios e me ouvir contando as histórias fez com que algumas coisas se acomodassem dentro de mim. Me reconheci. Encontrei algo parecido com paz”, revela.
A proposta dialoga com uma linha de investigação presente em toda a sua trajetória literária. Em seus livros anteriores, Pequenas Verdades e Outras Histórias e Para Entender Uma História de Amor, a autora já explorava as fronteiras entre verdade, percepção e ficção. Em “Ficção que chamo de eu”, essa pesquisa se aprofunda por meio da narrativa episódica e da autoficção.
“Cada episódio funciona sozinho, mas o encontro deles gera um significado outro. Descrevo uma situação, um mundo interior e deixo espaço para que o leitor complete a experiência. Aprecio essa forma fragmentada de criar um todo”, explica.
Entre a literatura, o teatro e a performance
Atriz, performer e escritora, Luciana leva para a literatura elementos de diferentes linguagens artísticas. Os textos de Ficção que chamo de eu carregam ritmo teatral, humor, ironia e recursos de montagem inspirados pelo cinema.
Entre suas referências estão autores e artistas como Anaïs Nin, Nelson Rodrigues, Milan Kundera, Sophie Calle e Annie Ernaux, que transformaram experiências pessoais em matéria estética.
“Talvez sejam os meus textos mais teatrais. Há o ritmo das narrativas, o humor e a ironia dos sitcoms, a edição do cinema. Também existe algo da acidez do Nelson Rodrigues, da liberdade da Anaïs Nin, dos fragmentos de Kundera e da maneira como artistas como Sophie Calle e Annie Ernaux utilizam a própria vida como material criativo”, comenta.
Ao transformar lembranças em literatura, Luciana propõe uma reflexão sobre a fragilidade das certezas e a natureza mutável da memória. Afinal, toda autobiografia carrega algo de invenção — e toda ficção, em alguma medida, também fala de quem a escreve.
Ficha Técnica:
Título: Ficção que chamo de eu
Autora: Luciana Palhares
Gênero: Autoficção / Crônicas
Editora: Tato Literário (selo da com.tato)
Ano: 2026
da Redação