Uma interessante ideia, um título que funciona, uma fotografia condizente e funcional. É muito bom ver o cinema brasileiro se arriscando em outras linguagens, embora tenha faltado um pouco de dramaturgia. A opção pelo minimalismo foi uma bela escolha, mas este não poderia ter sido aplicado também no drama.
“Cartório das Almas” instiga, te faz esperar para ver o que vai acontecer, mas isso não acontece nunca, o que não desqualifica a obra, apenas frustra um pouco. Trata-se de uma bela visão de uma fotografia dura e seca, mas não desidratada, cujas atualizações foram cabíveis à proposta. Obviamente há destaque para Gabriela Correa (Laura), pois foi quem pôde atuar em mais momentos, mas todo o elenco foi muito bem.

No seu lirismo de traços e formas, o longa explora Niemeyer, contrastando a arquitetura com o bucólico cartório do fim do mundo. A cuidadosa e detalhista direção de arte de Carol Maroti trouxe dramaticidade na composição de objetos históricos de uma repartição pública, contrastando com a sensação futurista estranha que o longa causa.
Mesmo observando elementos que pareciam ter vindo de um antiquário, a leitura visual nos induzia a pensar em outra dimensão, em outra realidade atemporal.

Por outro lado, há um conflito na explicativa sinopse divulgada na mídia, pois ela aprofunda o assunto que a obra em si não consegue explicar. Provavelmente teríamos outra impressão sem ela, ou mesmo se fosse mais abstrata. Isso porque, durante todo o longa, busquei situações que tinha lido, mas acabei encontrando um caminho próprio, uma interpretação particular.
Afinal, essa é uma interessante ideia de fim dos tempos, de caos, de esgotamento e desistência humana. Ninguém aguenta mais carregar o fardo de ser humano, de viver nesse mundo de sofrimentos onde não se pode ser feliz sem ser equivalentemente triste, e onde não se pode ser amado sem ser odiado.

O vazio das paisagens reflete o esgotamento de ser. Não dá mais. É um filme de protesto? De reflexão? Desabafo? Ou simplesmente tudo isso junto e misturado?
“Cartório das Almas” é um verdadeiro trabalho de equipe, onde há equilíbrio em todas as funções, com destaque para a direção de arte de Carol Maroti e a direção de fotografia de André Cavalheira, que brilharam sem ofuscar os demais. O roteiro e a direção são de Leo Bello.
por Carlos Marroco – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Pandora Filmes.