Crítica: Buenos Aires

Alguns conteúdos nos levam para lugares distantes. Outros mostram que o distante pode estar mais perto do que imaginamos. Viagens que começam sem sairmos do lugar. “Buenos Aires” parte de um fato inusitado logo no início: um município localizado na Zona da Mata de Pernambuco carrega o mesmo nome da capital da Argentina.

Mas, o que poderia ser apenas uma curiosidade geográfica, transforma-se em algo humano. O documentário está interessado em algo muito mais profundo do que explicar essa coincidência. Por meio do olhar de uma professora de espanhol, somos apresentados a personagens, narrativas e paisagens de uma cidade pacata marcada por contrastes sociais, mas também por afetos, memórias e influências culturais que surgem de formas inesperadas.

Mesmo sem registros concretos de uma ligação histórica com os argentinos, alguns moradores criam, à sua maneira, uma ponte simbólica com o país vizinho. Esta é justamente uma das ideias mais relevantes : nem toda conexão precisa nascer da história oficial para existir. Algumas nascem do imaginário, do desejo, da identificação e da forma como escolhemos enxergar o lugar onde vivemos.

Entre partidas de futebol, manifestações culturais e encontros que atravessam fronteiras, “Buenos Aires” sugere que identidade não é algo fixo — ela se constrói, se mistura e encontra caminhos improváveis. Em qualquer canto do mundo existem distâncias entre aquilo que desejamos ser e aquilo que conseguimos ser. E justamente nesse intervalo é que nascem os afetos, os símbolos e as histórias que contamos sobre nós mesmos.

Na produção, essas narrativas surgem não como uma busca por comprovação histórica, mas como vínculos criados pelas pessoas. O nome da cidade desperta associações, brincadeiras – por exemplo, a rivalidade no futebol, e a vontade, quase brincalhona, de querer ganhar da Argentina. Como se o município pudesse disputar consigo mesmo, e vencer o país vizinho. Imagine o município de mesmo nome ganhar de si mesmo. Se representasse o Brasil, na Copa, ia provocar uma boa confusão. Expectativas e até certo orgulho afetivo transformam coincidência em identidade.

No fim, fica uma reflexão que vai além do nome da cidade: quantos lugares existem dentro do lugar onde moramos? E quantas vezes carregamos referências de mundos distantes sem sequer perceber?

Talvez o filme – escrito e dirigido por Tuca Siqueira – não tente explicar uma coincidência, mas apenas mostre algo que já sabemos, e esquecemos com frequência: pessoas constroem pertencimento não apenas com mapas, mas com afeto.

Mais do que falar sobre Argentina ou Brasil, “Buenos Aires” fala sobre algo que reconhecemos em qualquer lugar: o desejo humano de encontrar significado onde aparentemente existe apenas acaso. Por isso desperta o interesse. Porque no fundo, todos nós, em algum momento, já habitamos um lugar real enquanto sonhávamos com outro.

Para conhecer essa curiosa travessia entre nomes, afetos e pertencimentos, vale a experiência de assistir na telona e descobrir que, às vezes, até os lugares mais pacatos carregam sonhos que atravessam fronteiras.

por Carlos Alberto Quintino – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela ArtHouse Distribuidora.