Crítica: O Mago do Kremlin

“O Mago do Kremlin” (Le Mage du Kremlin / The Wizard of the Kremlin) apresenta Vadim Baranov (Paul Dano), diretor de espetáculos que almeja estar junto dos poderosos na Rússia, bem próximo do que Vladimir Putin (Jude Law)  também deseja: Poder pelo poder. Duas “víboras” no mesmo local.

Por muito tempo, a relação da dupla é satisfatória, mas pode-se dizer que uma linha tênue os separa, uma vez que os interesses pessoais são o foco e, quem buscá-los mais, pode se beneficiar, porém, as manipulações de Vadim dão cada vez mais poderes a Putin.

E é justamente nessa atmosfera sufocante que o filme – baseado no premiado livro homônimo do romancista ítalo-suíço Giuliano da Empoli – cresce. Cada olhar, cada silêncio, cada palavra dita em tom quase inaudível carrega mais ameaça do que um confronto direto. Vadim não grita, não impõe… ele infiltra.

Como uma sombra que se alonga sem ser percebida, vai moldando narrativas, distorcendo realidades e, pouco a pouco, ajudando a construir não apenas a imagem de Putin, mas um sistema onde a verdade se torna apenas mais uma peça manipulável.

Vadim tem um jeito peculiar. Fala baixo, pausado, quase em um tom hipnótico. Com esta “lábia” conquista mais “terreno” para ele e para Putin. Enquanto em suas relações afetivas, passa por momentos delicados, afinal, sua esposa Ksenia (Alicia Vikander) quer sempre mais e estar mais alto.

A personagem não tem o mínimo de caráter: se outro tem o que ela quer, é com este outro que ela vai. E troca de companheiro com mais facilidade do que de roupas. No fundo, trata-se de cobras em todo jogo de poder político e pessoal durante toda a produção dirigida por Olivier Assayas (que também escreve o roteiro junto a Emmanuel Carrère).

Mas como em todo jogo onde o poder é o prêmio final, não existe lealdade — apenas conveniência.  O mais inquietante é perceber que, em meio a tantas estratégias e jogos psicológicos, ninguém está realmente no controle — ou talvez todos acreditem estar.

A linha que separa o manipulador do manipulado vai se apagando, criando um ambiente onde confiar é o maior dos riscos. E enquanto o poder cresce, também cresce o vazio. As relações se tornam frágeis, descartáveis, quase utilitárias.

O afeto, assim como a política, vira moeda de troca. E nesse tabuleiro frio, onde sentimentos são apenas ferramentas, o que resta são figuras que se devoram lentamente, sem perceber que fazem parte do mesmo veneno.

No fim, “O Mago do Kremlin” não é apenas sobre política — é sobre o preço de se aproximar demais dela. Um preço que, uma vez cobrado, dificilmente permite retorno.

por Carlos Alberto Quintino – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Imagem Filmes.

**Crédito das imagens: Carole Bethuel.