Crítica: A Operação Condor

Há histórias que não se revelam de imediato. Elas se insinuam.  “A Conspiração Condor” parte de um fato conhecido — a morte de dois ex-presidentes do Brasil, Juscelino Kubitschek e João Goulart -, para mergulhar em um terreno onde coincidências começam a soar convenientes demais.

Pelo olhar da jornalista Silvana, vivida por Mel Lisboa, a narrativa se constrói como um jogo de percepção. Pequenos detalhes, encontros carregados de tensão e diálogos que dizem menos do que parecem vão formando um quebra-cabeça inquietante.

Ao seu redor, figuras como a de Juan (Dan Stulbach) ampliam, além da investigação, a sensação de risco. Ambientada em um período em que o silêncio também era estratégia, a produção aposta na sutileza. Não entrega respostas fáceis — prefere plantar dúvidas.

E faz isso com precisão, conduzindo o espectador por uma trama, diante da qual, desconfiar passa a ser quase inevitável. Há momentos em que essa inquietação se materializa de forma quase silenciosa: reuniões carregadas de tensão, conversas em que se fala muito (sem dizer quase nada), encontros com figuras como Carlos Lacerda, que parecem mais jogos de xadrez do que diálogos propriamente ditos.

Dirigido por André Sturm (também co-roteirista ao lado de Victor Bonini), o longa não se apoia em grandes revelações imediatas. Pelo contrário: ele cria sua trama no acúmulo de pequenas suspeitas — um detalhe fora do lugar, uma similaridade insistente, uma sequência de eventos que parece organizada demais para ser acaso. A cada passo, a sensação é de que a verdade está próxima, mas nunca completamente acessível.

No fim, “A Conspiração Condor”, que não trata só de política, uma vez que também há romance em seu conteúdo, não pede apenas atenção. Pede reflexão. E deixa no ar uma pergunta incômoda: até onde vão, de fato, as semelhanças? No filme também está Pedro Bial, que representa um personagem central dessa trama, ressaltado como figura histórica neste período vivido no Brasil.

Se transportarmos para os dias de hoje podemos estar revivendo isso. Seria mais uma “coincidência”?

por Carlos Alberto Quintino – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Pandora Filmes.