Crítica: Ruídos

Dois medos fortes no mundo moderno são ter vizinhos problemáticos e precisar lidar com os barulhos da cidade, sejam problemas internos da casa ou da própria vizinhança. Em “Ruídos” (Noijeu / Noise), a protagonista Joo-Young (Lee Sun-bin) vai em busca de sua irmã desaparecida, colidindo com os segredos macabros do prédio onde ela morava.

Creio que a camada de horror que a obra dirigida por Kim Soo-hin trabalha mais diretamente é a vizinhança problemática. Todos os moradores do prédio são de difícil comunicação, levantando uma série de dúvidas. Quem está escondendo segredos macabros? Quem apenas está reagindo de forma defensiva contra os acontecimentos sombrios do prédio? Quem está enlouquecendo com a estranheza da situação, virando uma nova ameaça?

Em seguida, temos a questão dos barulhos estranhos. Quem nunca ouviu um estalo em casa e se perguntou se era algo normal, um problema estrutural ou mesmo um invasor? Joo analisa cada detalhe, tanto dos sons estranhos do apartamento, quanto os registros da investigação pessoal que sua irmã fazia.

No mundo real, a dilatação térmica de dos diferentes materiais que compõem nossa residência já resulta em múltiplos barulhos que podem ser apavorantes e originam muitas histórias de assombração, além daqueles de problemas estruturais ou pragas. Muitos casos famosos de casas assombradas que viraram filmes começam justamente com batidas que são respondidas ou sussurros de origem misteriosa.

Aqui, a protagonista possui uma “vantagem”: sua dificuldade auditiva que necessita de aparelho para ser contornada. Logo, ela é menos afetada pelos sons bizarros do que os demais moradores, permitindo investigar de forma mais longa e profunda, sem ter a mente tão diretamente afetada no processo.

Em meio aos barulhos estranhos surgem os pedidos de ajuda de Joo-Hee (Han Soo-a), a irmã desaparecida. Ela está viva e presa no prédio? É um fantasma pedindo ajuda?  É algo se passando por ela? Mergulhamos cada vez na tensão de Joo-Young nessa investigação, dificultada tanto por uma polícia que intervém apenas em casos extremos, quanto pela associação de moradores que possui seus próprios fatores.

Assim como o clássico tailandês “Os Espíritos”, de 2001, discute a questão de distorção sobrenatural em fotografias de múltiplas formas, o mesmo é debatido em gravações sonoras no coreano “Ruídos”. Também podemos ver um toque leve de Horror Cósmico, no sentido mais lovecraftiano, a ideia de alguém minúsculo mergulhado em um mundo imenso e sombrio, cuja percepção pode levar à loucura.

Similar ao filme “Caixa de Pássaros”, onde a visão de algo indescritível destrói a mente das pessoas. Já em “Ruídos” são os sons assustadores e bizarros que vão quebrando a psiquê humana. Desse modo, somos levados por uma narrativa detetivesca de suspense sobrenatural (escrita por Lee Je-hui), com direito a um ambiente labiríntico e batalha final emocionante.

Um ótimo exemplar para quem gosta de terror asiático e deseja algo que se destaque menos pelo gore e sustos e mais por uma boa história de investigação com fantasmas.

por Luiz Cecanecchia – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela A2 Filmes.