“Resident Evil” é uma das franquias de games que mais está intimamente ligada ao cinema. O conceito do primeiro jogo é uma grande homenagem aos filmes B de zumbi, principalmente a “Hexalogia dos Mortos” de George A. Romero. A introdução inicial em live action, entrega sem nenhuma vergonha essas origens sepulcrais.
Apesar dessa relação tão profunda, as adaptações em live action para a grande tela sempre foram divisíveis. Em sua primeira encarnação, a série contou com seis títulos liderados por Milla Jovovich, criando um universo próprio a partir de referências dos jogos. O resultado foi foram produções com altos e baixos, mas que construiu uma identidade própria e independente dos jogos, com seus próprios fãs e entusiastas.
Já a segunda personificação foi mais breve, com “Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City” (2021), reboot que tenta adaptar mais fielmente os games, mas falha justamente nessa transposição dos elementos que deveriam ser fiéis ao material de origem. Não agradou nem os fãs da franquia, nem o público em geral.

Chegamos à terceira versão cinematográfica, dessa vez apostando em uma história original que abraça apenas alguns elementos dos jogos originais, sobretudo o segundo e terceiro game da franquia. Para aqueles que acompanham a trajetória Zack Creggier, em especial seu excelente trabalho em “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”, “Resident Evil” já é uma pedida obrigatória.
Pois, a jornada de Bryan (Austin Abrams), um entregador de suprimentos médicos que precisa fazer uma encomenda no Hospital Geral de Raccoon City durante uma noite de tempestade de neve, entrega exatamente tudo o que esperamos do diretor e muito mais.
A ação brutal com ritmo forte, marca de seus recentes trabalhos, está presente, potencializada pela atmosfera apocalíptica de uma cidade no auge de um surto zumbi. Entre os desafios enfrentados pelo protagonista estão monstros famosos da franquia e muitos inéditos criados especialmente para o longa.

Embora fuja bastante da mitologia dos jogos, buscando uma identidade própria, Creggier consegue criar uma jornada bastante atmosférica e coesa. O que falta em referências diretas ao mundo de Resident Evil, sobra em relação à cultura gamer como um todo. Diversos tropos das mídias interativas são explorados, desde os mais óbvios como a câmera em primeira pessoa, até coisas como a factibilidade de abrir um cadeado com um tiro.
A progressão de Bryan ao longo de sua jornada até o Hospital, lembra bastante a lógica das fases, apresentando atmosfera e desafios específicos, com direito a chefão e perseguidor imortal. Essa transposição de linguagem deve agradar aqueles que buscam algo além de uma mera adaptação do universo da franquia.
Creggier acerta em não seguir uma história já conhecida e se permite experimentações e desenvolvimentos de personagens que não seriam possíveis de outra forma. Mas tal liberdade também traz revezes: a ação intensa é quebrada por diversos momentos de alívio cômico, que fazem sentindo dentro da trama, mas são por vezes exagerados, diminuindo o impacto de certas cenas.

Esse tom caricato é especialmente negativo, quando se trata do envolvimento de alguns personagens importantes para a narrativa, minimizando a importância que cada um deles exerce em cena. Contudo, são pequenos problemas que, de forma alguma, diminuem a potência da obra e seu final apoteótico, fazendo a audiência levantar-se da cadeira e pedir por mais.
Uma continuação vai depender da recepção deste, mas já fica aqui a torcida para termos mais capítulos da série através do olhar de Zack Creggier, que apesar das críticas pela pouca fidelidade, fez um trabalho memorável.
Ele não adaptou a saga dos games, como um bibliotecário com a bíblia da saga na mão. Mas tentou proporcionar a experiência de jogar a franquia, com todos seus elementos de sobrevivência e tensão constante. E nesse ponto, acerta o tiro em cheio e entrega talvez a melhor adaptação de Resident Evil já feita para o cinema.
por Rafael Bezerra – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sony Pictures.