Já houve dois títulos de terror reinterpretando Cinderela recentemente, “A Maldição de Cinderela” e “A Vingança de Cinderela”, ambas com a protagonista do famoso conto de fadas usando poderes sombrios contra a cruel madrasta.
Em “A Meia Irmã-Feia” (Den Stygge Stesøsteren / The Ugly Stepsister) temos um ponto de vista distinto, justamente o de Elvira (Lea Myren) , meia-irmã mais velha de Agnes, a Cinderela ( Thea Sofie), mostrando como seu corpo e mente são manipulados por sua mãe, Rebekka (Ane Dahl Torp), a fim de trazer fortuna para a família.
Um filme norueguês que traz algo de novo ao tema com desenvolvimento primoroso em uma trama de horror corporal explícito com toques de comédia. Após um casamento puramente por interesse, Otto (Ralph Carlsson)- o pai de Cinderela – falece, deixando uma pilha de dívidas.
Coincidentemente, o grande baile real é anunciado para daqui alguns meses, um evento que reunirá a elite do reino e onde príncipe escolherá sua esposa. O local perfeito para conseguir um marido rico. Começa então a disputa acirrada entre Agnes e sua meia-irmã para os preparativos do baile.
Elvira é inocente, ingênua e extremamente manipulável, tornando-se alvo de sua mãe que vê as filhas unicamente como ferramentas de ascensão social. Vilão em destaque, Dr. Esthétique (Adam Lundgren) é o responsável por fazer as dolorosas cirurgias para deixar a garota dentro dos padrões exigidos por Rebekka.

Do outro lado temos academia Kronenberg para moças, onde as meninas são treinadas para apresentação de dança. Um local que parece exalar arte e delicadeza, mas que oculta um rigor e crueldade de seus professores. Inclusive, o nome parece ser uma homenagem do mestre homônimo do cinema de horror corporal.
A beleza das locações, vestidos e danças é um espetáculo visual exuberante, gerando um contrate marcante com as cenas grotescas de mutilação corporal que vemos na história. Enquanto Agnes é colocada cada vez em situações mais desagradáveis pela madrasta – em parte por ciúme de Elvira que a vê como a maior concorrente para conseguir o príncipe.
Cada procedimento estético, cada treino físico, vai destruindo sua saúde e sua mente à medida que sua aparência externa fica cada vez mais próxima do ideal da realeza. Quando falamos em horror corporal, estamos falando da mescla de nojo e medo de vermos um corpo perdendo sua humanidade e se degradando.
Stephen King argumenta que suas raízes estão nos longas de licantropia, que têm em seu núcleo o pavor de perder o controle do próprio corpo. E que o tema dialoga muito com a adolescência, justamente por ser uma fase cheia de alterações corporais, cujos resultados nos impactarão para o resto da vida.

Essa visão realmente é bem notável em “A Meia-Irmã Feia”, com uma adolescente que tem seus sonhos manipulados e seu corpo controlado por outros que a observam como mera ferramenta a ser usada para seus próprios interesses. Fato reforçado quando vemos a irmã mais nova, Alma (Flo Fargeli) , tentando se proteger do destino que sua perversa mãe , assim como toda a realeza, reserva para ela, quando tiver idade fértil.
Isso dialoga muito com o mundo real, onde temos uma explosão de influencers mirins explorados pelos pais e responsáveis, por vezes de forma criminosa, visando criar modelos de beleza e padrões de vida – na maioria, ideais inalcançáveis – para vender produtos inúteis, colocando os jovens em situações perigosas só pela audiência. Apenas recentemente começamos a ter ações e leis no país para lidar com esse tipo de exploração.
Voltando ao filme, outro elemento de destaque é a trilha sonora com uso de sintetizador, lembrando as fantasias sombrias cinematográficas dos anos 1980. Esse elemento, combinado com as variações de luz e a mescla única de artefatos cênicos, gera um clima de conto de fadas macabro, não se passando em um momento histórico específico, mas em mundo próprio com suas próprias leis.
Vale dizer que o sobrenatural existe de leve na trama escrita pela também diretora Emilie Blichfeldt, só sendo relevante – mas ainda assim marcante – na forma como Cinderela consegue ir baile.
Uma produção fascinante com momentos pesados e nojentos, para os fãs de horror corporal. Vejo como uma das grandes obras primas desse gênero.
por Luiz Cecanecchia – especial para CFNotícias
*Título assistido em Sessão Especial promovida pela A2 Filmes e Mares Filmes