Crítica: Presença


Não é de hoje que Hollywood explora o conceito de casas assombradas por entidades sobrenaturais. São tantos exemplos nas produções norte-americanas que fica até difícil imaginar algo de novo em tramas desse perfil.

No entanto, “Presença” (Presence), dirigido por Steven Soderbergh, consegue subverter o gênero ao colocar o espectador no ponto de vista da entidade e criar um drama familiar com muitas camadas de interpretação, discutindo profundamente temas como saúde mental, bullying e misoginia.

Pode-se dizer que a protagonista é a Presença que dá título ao filme. Por meio dela, acompanhamos Chris (Chris Sullivan) e sua esposa Rebekah (Lucy Liu), que acabam de se mudar para uma nova casa com seus filhos: Tyler (Eddy Maday), um garoto promissor que vê nessa mudança de ares uma oportunidade de ascender socialmente no colégio e garantir uma bolsa de estudos para a faculdade, e Chloe (Callina Liang), que sofreu um trauma ao perder duas amigas para uma overdose e passa por um processo de luto que afeta profundamente sua saúde mental.

Rebekah, a matriarca, claramente tem preferência por Tyler, negligenciando Chloe e sua condição, sob a desculpa de que não consegue se conectar com a garota. Além disso, a personagem de Lucy Liu esconde segredos obscuros de sua família, o que a afasta do marido e a torna uma personagem fria e pragmática.

O único membro que consegue ultrapassar essas barreiras é seu filho. Já Chris se mostra um pai preocupado, sempre apoiando Chloe e buscando corrigir Tyler de seus comportamentos nocivos, tanto com a irmã quanto com outras garotas do colégio, tentando sempre trazer à tona o melhor lado do garoto.

Algo que pode passar despercebido por muitos, mas é de extrema importância para a construção de Tyler, é o fato de a família protagonista ser interracial, sendo o pai branco, enquanto a mãe e os filhos são lidos socialmente como amarelos.

Esse fato não tem grande peso no desenvolvimento de Chloe ou dos outros membros, mas quem compartilha as raízes étnicas de Tyler consegue entender seu comportamento tóxico ao tentar imitar e exagerar as atitudes dos garotos brancos para se incluir socialmente, buscando evitar ser estereotipado e, eventualmente, excluído.

“Presença” surpreende o espectador em todos os aspectos, conseguindo subverter não só o gênero em que está inserido, mas também as expectativas sobre a direção da trama.

O filme constrói um suspense intrigante enquanto desenvolve profundamente os personagens da família protagonista, de forma sutil e sem subestimar a inteligência do público.

Pela premissa, é possível traçar um comparativo com os longas da série “Atividade Paranormal”, mas “Presença” se apresenta como a antítese desses filmes, oferecendo uma abordagem mais psicológica e emocional.

Com uma direção inspirada e um roteiro que evita clichês previsíveis, a produção se destaca como uma experiência cinematográfica imersiva e provocativa. Ao equilibrar o um clima de terror sobrenatural com um drama familiar denso, Soderbergh entrega uma obra que não busca assustar, mas sim convidar para uma reflexão, provando que tramas sobrenaturais pode ser um espelho poderoso para questões sociais e psicológicas.

por Marcel Melinsk – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.