
Crítica: O Bom Professor
É amplamente sabido que as escolas são fontes de aprendizagem formal. Porém, também são instituições que, em geral, não carecem de problemas. Vínculos entre professores e alunos, presença ou ausência dos pais, relações entre os docentes, diretores e autoridades educacionais etc. não são simples. Satisfações, avanços não faltam, assim como desencontros, desavenças, questões de diversa índole.
Dito isso e indo para o filme, podemos enquadrá-lo dentro do antes resumido. Em “O Bom Professor” (Pas des Vagues) Julien Keller (François Civil) é um jovem professor que tem uma turma com pré-adolescentes e adolescentes. Ensina em forma detalhada como redigir, ser o mais atento e preciso possível com os conceitos e sua expressão escrita.
Porém, utiliza como material de estúdio textos com temas vinculados à sedução, o que pode até derivar em projeções inconscientes dos alunos para com o docente. E ele é acusado de assédio sexual por uma aluna, Leslie Reynaud (Toscane Duquesne).
Esse fato teria começado quando Julien convidou os alunos a um almoço e. nessa oportunidade, a estudante se sentiu assediada. A acusação não parece ter nenhum fundamento sério. Contudo, a situação do educador se complica, pois a denúncia vai dar lugar a um processo jurídico. Por sua vez, ele apresenta sua defesa às autoridades da escola e à polícia, onde não só não é aceita, mas vai ficando pior.
Julian alega que fez esse convite aos jovens para se aproximar deles. E, mais adiante, com os conflitos progredindo contra ele, diz: “Gostaria de ser um professor que muda a vida dos outros. Como aquele que mudou a minha”.
Parece um argumento muito sensato, mas, no caso, deriva em situações conflitivas. Porque, se por um lado, teve muita coragem para iniciativas nada habituais, sabia que trariam um risco – o que significava que poderia ter consequências ruins. Mas, simultaneamente, também foi excessivamente arriscado, ao ponto que, em algum momento, ele mesmo reconheceu tal avaliação.
Tudo – ou quase tudo – caminha em direção problemática para o protagonista: desentende-se com as autoridades do colégio, com colegas e com a maioria dos alunos. Aliás, a turma não é fácil de lidar e há uma líder muito audaciosa, manipuladora e maldosa: Océane (Mallory Wanecque). Também no grupo está um irmão de Leslie, Walid (Shaïm Boumedine), indivíduo ameaçador e decididamente violento.
A situação fica mais complexa ainda pelo fato do professor ter um relacionamento homoafetivo, o que o leva a encruzilhadas de difícil – ou até pouco menos que impossível – solução. Inclusive, essa relação pessoal é abalada por tanta confusão. Para piorar, um vídeo privado é divulgado entre os alunos, o que acrescenta uma nova dificuldade. (Observação: Recentemente, foi notícia no jornal chileno “El Mercurio” que uma professora foi demitida por causa da difusão entre seus alunos, via vídeo na Internet, de situações sexuais).
“O Bom Professor” traz muito material para refletir sobre a profissão da docência de nível médio. Teddy Lussi-Modeste, diretor e roteirista, apresenta uma crítica ao sistema escolar e aos preconceitos. E uma apresentação da maldade, da violência em contraste com as boas intenções.
O cinema francês tem muitas realizações contra a situação de algumas instituições, em particular o sistema escolar, como neste caso. Alguns exemplos: “O Professor Substituto” (L’heure de la sortie, 2018) e “Luta de Classes” (La lutte des classes, 2019). Aliás, a história do cinema ocidental tem títulos marcantes, desde “Ao Mestre, com Carinho” (To Sir with Love, EUA, 1967), “Perfume de Mulher” (Scent of a Woman, EUA, 1992), “Professor” (Teacher, EUA, 2019) em diante, incluindo outras origens – “A Caça” (Jagten, Dinamarca/Suécia, 2012), onde um professor também é acusado indevidamente.
Resumindo, “O Bom Professor” pode interessar, no mínimo, a dois setores de público: em relação às escolas e aos temas do preconceito de setores da sociedade contra a comunidade LGBTQIAPN+.
por Tomás Allen – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Mares Filmes
**Créditos das imagens: Kazak Productions – Frakas Productions – France 3 Cinéma – 2023