Crítica: “Marvin”


“Marvin” (Marvin ou La Belle Éducation) é o mais recente trabalho da diretora luxemburguense Anne Fontaine, indicada ao prêmio Bafta por seus filmes “Agnus Dei” e “Coco antes de Channel”. O longa segue a história de Marvin Bijou, um jovem de uma cidade do interior da França, extremamente conservadora, que encontra no Teatro uma fuga dos conflitos do lar. Também graças ao teatro, ao se mudar para Paris, Marvin se confronta, e se conforma, com sua própria homossexualidade, reprimida pelo conservadorismo de sua cidade natal.

O título visa trazer à tela a vivência LGBT, particularmente gay, levantando discussões sobre representatividade e como seu impacto pode ser positivo em uma criança homo; a violência contra crianças ditas “afeminadas” e homos – mostrada em cenas muito incômodas; a repressão da sexualidade baseada na ideologia e não na violência, uma das formas mais comuns de repressão; e por fim como a arte se torna uma forma de escapatória para alguns LGBTs de uma realidade que não os aceita. No entanto, “Marvin” aparenta não focar no neste público, do qual vários já estão bem familiarizados com estes temas, mas sim no público heterossexual, naqueles que não conhecem os impactos e ramificações destes fatos, apresentando essas questões de uma maneira não semelhante a uma palestra, mas sim através de uma trama interessante.

Existem, no entanto, alguns problemas: o primeiro é que o longa tenta ser como os já famosos filmes ditos “artísticos”, em especial os franceses. Infelizmente traz uma narrativa exposta de maneira convencional, contada através de flashbacks na tentativa de fragmentação. Até mesmo a falta de uma trilha sonora própria, ou sequer a presença de trilha sonora qualquer em várias cenas, que não fosse música pertencente ao próprio universo do filme (diegética), uma técnica comum a vários filmes “artísticos”.

O pouco que o filme se desvia do convencional é no texto escrito por “Marvin” para sua peça na qual apresenta uma crítica à sua vivência na sua cidade, e em particular com sua família. Também existe certa inocência na narrativa familiar: apesar de ser uma família que se nega à violência (com exceção do violento irmão mais velho), mesmo com o filho gay – tão comum até mesmo em ambientes não violentos –, a relação entre os pais e Marvin parece pacífica, e o distanciamento que eles mantêm do filho parece igual ao que eles mantêm dos outros.

Com exceção do protagonista (o ator Finnegan Oldfield) que ainda precisa desenvolver mais suas atuações, o restante do elenco está bem na tela. O destaque fica para a atriz Catherine Mouchet como a diretora que virá a incentivar um Marvin pré-adolescente a se envolver com o teatro. Sua atuação me fez lembrar de alguns de meus melhores professores.

“Marvin” é um filme complexo. Por um lado, ele é convencional, e para a função que parece querer estabelecer, é bom que assim o seja. Isso é contrabalanceado por sua tentativa frustrada de fugir do convencional, e se tornar “artístico”, o que só com sua narrativa, já teria sucesso. Aos héteros, recomendo àqueles que queiram conhecer mais sobre as questões que o longa levanta. Aos LGBT, é mais um título que pode ser catártico, ainda que retrate a questão familiar de maneira ligeiramente inocente.

por Ícaro Marques – especial para CFNotícias