Crítica: Make a Girl

“O controle dói”

Enquanto os grandes sucessos recentes de animes no cinema vêm de séries famosas ou de produções do estúdio Ghibli, em “Make a Girl” temos um caminho diferente.

O filme é baseado no premiado curta-metragem “Make a Love” de Gensho Yasuda de 2020, conseguindo financiamento coletivo em 2022 para criar o longa de animação que estreia agora nos cinemas brasileiros.

Na história, um garoto prodígio vê suas invenções falharem repetidamente cria uma namorada para melhorar seu progresso científico. Porém, descobrirá de maneira dolorosa que sentimentos não devem ser manipulados.

Sobre o visual em si, temos um anime em computação gráfica que  imita animação 2d convencional, deixando tudo suave e fluido. Ao mesmo tempo, o clima inicial de suavidade e delicadeza com pontuais momentos sombrios no laboratório disfarçam a tragédia romântica cyberpunk que é o núcleo do anime.

Quanto à trama, temos dois protagonistas: o menino cientista Akira, e a garota artificial, Zero. O garoto, apesar de frequentar uma escola normal, mal liga para os amigos próximos, ficando obcecado por prosseguir o legado científico da mãe, a cientista que criou a linha de robôs humanoides SALT, usados em massa para a maioria dos serviços braçais.

Akira é alguém que sente a sombra do legado da mãe e que tenta, perigosamente a qualquer custo, criar invenções inéditas para se considerar digno da fama da cientista. Já Zero não é um robô tradicional, mas um ser humano real criado em laboratório com uma mente artificial. Alguém com um conhecimento enciclopédico na mente, que está aprendendo o que fazer com ele e como interagir com as pessoas.

É bem claro como aquilo que deveria ser um casal supostamente perfeito, criado com a ciência mais avançada, se mostra cada vez mais distinto. Ela aprende com os indivíduos ao seu redor, ganha sutilezas e descobre os prazeres dos pequenos momentos. Ele se torna cada vez mais apático, observando tudo e todos como instrumentos de seus objetivos.

Podemos pensar até onde existe certa inveja de Akira por Zero crescer continuamente como pessoa, enquanto ele estagna como cientista. Dados precisam de organização para se tornar informação, informação precisa de experimentação virar sabedoria. A experiência com o mundo a faz evoluir, enquanto ele entra em ciclos viciosos, por não saber olhar nem para fora, nem para dentro de si.

Não é uma questão de demonizar a ciência, mas sim a busca incessante por controle, como a procura pelo épico pode ofuscar a grandeza dos pequenos detalhes. O que é amar? Até onde é possível controlar as emoções nossas e das pessoas ao nosso redor? Até onde somos controlados pelos desejos de outros sem percebermos?

Assim, temos o desenvolvimento de “Make a Girl” até o terço final cheio de tensão, perseguições e revelações sombrias. O gênero cyberpunk costuma ser definido por alta tecnologia combinada à baixa qualidade de vida, com grande destaque para as ciências cibernéticas e realidade virtual, tornando-se talvez o gênero fantástico mais próximo da nossa realidade atual.

Nesse momento de discussões sobre IA tão presentes, é um filme que fala justamente sobre as consequências psicológicas e sociais para a própria família de uma cientista de IA é extremamente relevante.

Para quem gosta de uma boa ficção científica que não precise estar amarrada à ação para desenvolver e curte histórias emocionalmente densas, fica a dica.

por Luiz Cecanecchia – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Sato Company.