Assistir a “Kokuho – O Preço da Perfeição” (Kokuhô) foi, para mim, uma experiência intensa e desconfortável — no melhor sentido da palavra. Escrito por Satoko Okudera e dirigido por Sang-il Lee, o filme mergulha no universo do kabuki e não apenas mostra uma arte tradicional japonesa, mas expõe o peso que ela impõe sobre quem decide (ou é obrigado) a carregá-la.
O que mais me marcou foi perceber que o kabuki, tão belo esteticamente, também é extremamente rígido e excludente. O fato de apenas homens poderem atuar — inclusive nos papéis femininos — me causou incômodo.

Há uma misoginia estrutural que o longa indicado ao Oscar de Melhor cabelo e Maquiagem não precisa nem denunciar explicitamente: ela está ali, naturalizada, incorporada à tradição.
Isso me fez refletir sobre como certas práticas culturais são defendidas como “patrimônio”, mesmo quando mantêm desigualdades profundas. Ao mesmo tempo, é impossível não reconhecer a complexidade do tema: tradição e injustiça aparecem entrelaçadas.
Outro ponto que me impressionou foi a dificuldade técnica da atuação. Nada é espontâneo. Os movimentos são codificados, duros, repetidos à exaustão. A entonação em tons altos, os gestos amplos, a postura corporal — tudo exige um controle quase sobre-humano.

Penso no quanto deve ser sufocante viver sob essa disciplina constante. A arte ali não nasce do improviso, mas da repetição obsessiva até atingir a perfeição. E o título faz todo sentido: o preço da perfeição é altíssimo.
O contexto do Japão pós-guerra também adiciona uma camada importante. Há um país tentando se reconstruir e, simultaneamente, preservar aquilo que considera essencial à sua identidade. O artista deixa de ser apenas indivíduo e passa a ser símbolo. Isso me deu a sensação de que os personagens não lutam apenas pelo sucesso pessoal, mas por sobrevivência cultural.
Os conflitos entre pai e filho foram, talvez, a parte mais dolorosa da história. A tradição hereditária transforma o palco em campo de batalha. Amor e expectativa se confundem. Há traições, manipulações e pequenas crueldades justificadas em nome da continuidade da linhagem e do prestígio. Fiquei com a impressão de que, em muitos momentos, o talento importa menos do que o sobrenome. O sucesso parece construído não apenas com esforço, mas com estratégias e artimanhas de bastidores.

Saí da sessão com sentimentos mistos. Por um lado, admirei profundamente a estética, a disciplina e a força cultural do kabuki. Por outro, senti o peso da rigidez, da exclusão e das relações humanas corroídas pela ambição.
“Kokuho – O Preço da Perfeição” me fez pensar que a arte pode ser sublime no palco e cruel nos bastidores. É um filme que não entrega respostas fáceis — ele provoca, incomoda e faz refletir sobre tradição, identidade e até sobre o que estamos dispostos a sacrificar para sermos reconhecidos.
por Ricardo Nozaki – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sato Company.