
Crítica: Girassol Vermelho
“Girassol Vermelho” é uma viagem improvável possível. É uma viagem à mente perturbada de todos nós, transfigurada em Romeu (Chico Diaz). Tudo parece parte de um sonho mal sonhado, mal dormido. Os desejos, o medo, as fragilidades. Cenas propositalmente sem nexo, história sem explicação lógica, numa sucessão de imagens estranhas, que se pensadas com a integridade de um entendimento razoável, jamais serão compreendidas.
Ao se pensar com a intenção (ou sem ela) na proposta do realismo fantástico – inspiração do roteirista e do diretor, na obra de Murilo Rubião – pode-se tentar uma compreensão, quando simplesmente deveria ser o mais simples caminho, ao se pensar no avesso de nossas vontades.
O absurdo e a falta de sentido são elementos de crítica ao mundo real. O que há de mais marcante é a perda da liberdade, sofrida por Romeu, por razões rasas e indefinidas, além da repressão gratuita, simplesmente por ser e estar.
Exposto assim, não parece tão estranho, e até nos soa familiar. Mas, voltando ao contexto do filme, sua personificação maior é a dúvida, aliada à insegurança do desconhecido.
A música impulsiona e impõe o suspense, assim como é imposta a prisão de Romeu. A fotografia dá o clima de sonho, de esquisito e incômodo, já que não nos é comum. E nos tira da habitual zona de conforto, da qual preguiçosamente não queremos sair.
Esse tipo de trabalho parece ser muito divertido para os atores. Cada participação é inusitada. Criar personagens absurdos e fora da “casinha”, e porque não, perturbados, loucos, é um delírio deliciosamente divertido.
Vale destacar Bárbara Paz, que mesmo em um universo sem propósito e uma personagem adversa, traz uma interpretação de grande valor. Outro ator que merece aplausos (não que os outros que embarcaram nessa loucura não mereçam) é Mariano Mattos, na figura cínica da autoridade questionadora.
Com direção de Eder Santos, e com roteiro do diretor com Mônica Cerqueira, “Girassol Vermelho” é um filme corajoso e necessário. O público precisa refletir, não mais apenas sorrir ou chorar. Mesmo que seja para saber se gostou ou odiou, faz-se necessária essa ponderação.
por Carlos Marroco – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Pandora Filmes