Crítica: Dois Procuradores

Geométrico, paralelo e teatral. “Dois Procuradores” (Zwei Staatsanwälte / Two Prosecutors) é grandioso em suas formas, em sua fotografia milimetricamente pensada e executada, em seu roteiro de uma perfeição absoluta, na predominância do silêncio muito bem explorado.

Um filme com roteiro e direção de Sergei Loznitsa que traz uma qualidade absoluta de detalhes e grande simbologia inserida neles. Das linhas paralelas das paredes com os limites da tela, do relógio precisamente alinhado com o jovem procurador Alexander Kornev (Aleksandr Kuznetsov), à composição da cela de Stepniak (Alexander Georgijewitsch Filippenko).

Atores muito bem preparados e precisos em seus movimentos contidos e quase ausentes, mas carregados de uma carga dramática potente. O mesmo se diz para as sequências de longo silêncio, que tornam o longa uma sucessão de emoções.

Os poucos diálogos são escapes fundamentais e suficientes. Destaque para o jovem Aleksandr Kuznetsov (um procurador) e Alexander Georgijewitsch Filippenko (o preso).

Não tem como não exaltar o detalhismo exposto em cada segundo. Uma joia esculpida pelas mãos e olhos de Loznitsa. Em tudo há informações e pistas do que se seguirá. Nas cores usadas em cada parte da produção, que na verdade, parecem atos distintos, mas interligados.

Nas linhas paralelamente perfeitas, nos móveis, nas escadas com as paredes, no corte dos figurinos, nas expressões quase neutras dos atores, e nos grupos, que mais parecem coros de tragédia grega.

O tempo é uma personagem. Devido a tal importância atribuída, ele é um rival, que tenta tirar Kornev do eixo, de seus objetivos, em todos os momentos, sem dar descanso.

A história se passa na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), quando um jovem procurador recebe um pedido de ajuda de um preso injustiçado pelos abusos da nefasta polícia secreta soviética (a NKVD – Comissariado do Povo para Assuntos Internos).

“Dois Procuradores” é um filme maior, uma obra de arte que traz, de maneira genial, a discussão sobre os efeitos negativos de governos totalitaristas.

por Carlos Marroco – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Retrato Filmes.