Três gerações de mulheres presas em uma casa para tentarem se proteger de um ciclo contínuo de violência.
Assim é “Delírio”. Aqui a médica Elisa (Liliana Biamonte) se muda para ajudar a cuidar mãe Dinia (Anabelle Ulloa), atualmente em estado progressivo de demência, ao mesmo tempo em que busca proteger sua própria filha, Masha (Helena Calderón), com o viés ainda das histórias de assombração do local.
Não estamos falando de uma narrativa pensada para causar medo, mas para discuti-lo. O medo da criança na casa nova, o medo da mãe de perder sua família, o medo da avó de ficar inválida.

Temos o predomínio de um clima melancólico gerado pelo aspecto mais contemplativo e minimalista do filme, quase todo se passando em uma residência pequena com as três personagens.
Uma melancolia com beleza gótica. As filmagens noturnas nos quartos se associam com a luz pálida mesclada ao ambiente de cortinas diáfanas, gerando imagens que mesclam a delicadeza com o pavor.

Quando vamos às raízes do gênero gótico, anterior em mais de século ao terror, temos duas bases importantes. A primeira é inglesa, com a ideia de locais labirínticos onde há um segredo a ser desvendado e uma força monstruosa perseguindo a protagonista.
A segunda é norte-americana, focada em Edgar Allan Poe, onde a mente humana é o principal labirinto a ser desvendado, nunca sabendo os limites entre o sobrenatural e os delírios gerados pelo medo em si.
Em “Delírio”, realmente ficamos sem saber até que ponto existe alguma atividade sobrenatural e o que é alucinação da idosa, imaginação da criança ou paranoia materna, esta última reforçada pelo esgotamento mental de ter que cuidar de duas pessoas com necessidades tão distintas.

À medida que a história avança, vamos montando lentamente o passado dessa família dado por minúsculos fragmentos, alternando com sombrias cenas contemplativas, descobrindo as marcas psíquicas de violência dos homens que passaram por essas pessoas. O próprio silêncio prolongado é uma pista, já que é natural que todos desejem falar o mínimo possível de algo traumático.
Esqueça flashbacks reveladores ou grandes cenas explicativas. O clima lento se mantém do início ao fim, cabendo ao telespectador fazer montar as peças desse quebra cabeça.
Vejo a obra em si como um drama que bebe ricamente do gótico com bons resultados atmosféricos. Pode ser uma boa porta de entrada para fãs de terror que desejam começar a assistir a dramas e vice-versa, sendo que o público que consome ambos e deseja algo mais lento e /ou atmosférico vai encontrar aqui um bom filme, assim como quem deseja ver obras góticas latino-americanas.
por Luiz Cecanecchia – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pelo Filmes do Estação.