Crítica: Angel’s Egg

Nos anos 1980 e 1990 houve a proliferação no Japão dos OVAs, animações feitas diretamente para home vídeo, sendo longas-metragens ou minisséries com raras exibições em cinema,  resultando em várias obras de qualidade excepcional e variado grau de experimentação.

Entre elas temos “Angel’s Egg” (Tenshi no Tamago), feita por Mamoru Oshii e Yoshitaka Amano em 1945, onde em um mundo sombrio e fantástico, um casal ronda um suposto ovo de anjo. Obra que a Sato Company agora lança no Brasil em uma nova edição restaurada para ser vista nos cinemas.

Mamoru é considerado o criador do primeiro OVA, “Dallos”, além de responsável pela adaptação de mangá para anime de “Ghost in Shell”, o clássico cyberpunk policial cibernético. Já Yoshitaka é o designer responsável por outro OVA de sucesso, “Vampire Hunter D” (traz pra cá também, Sato Company, por favor!) e tem participação em variadas obras, de games e gibis.

O anime tem um ritmo contemplativo extremamente belo e sombrio ao mesmo tempo, com poucos diálogos, uma jornada por um mundo em ruínas com diversas faces. Uma cidade amaldiçoada que mistura rococó com gótico. Uma floresta retorcida, sem animais, cujas árvores ameaçadoras parecem quase petrificadas.

Uma tecnologia que lembra o orgânico, quase pulsando. Até mesmo um castelo construído com rochas fósseis, entre outras faces desse mundo, recoberto por uma tempestade eterna. A edição é feita como se cada cenário fosse uma sequência de quadros com longas pausas para você apreciar e refletir.

A garota tem tons de branco luminescentes, com traços delicados que lembram os raios do luar (nessa terra sem lua), protegendo o ovo a todo custo, quase uma lâmpada em alto contraste com a escuridão do cenário, tentando sobreviver com a escassez de comida. Não há frutos ou animais nessa terra devastada. Já ele vem de uma área tecnológica, tentando entender a natureza do ovo, com trajes cujas cores e estilo quase se fundem ao cenário. Um misto de guerreiro com eremita, enquanto ela tem um ar que nos recorda uma donzela ou uma sacerdotisa.

A narrativa de “Angel’s Egg” é linear e aparentemente simples, mas totalmente aberta a interpretações e feita justamente para isso. Parte da diversão é descobrir os detalhes dos cenários, dos dois personagens e das raras falas, para criarmos nossas próprias teorias de qual o passado daquele mundo, qual o conteúdo do ovo, o que são aqueles dois personagens que parecem humanos.

Teorias que são debatidas até hoje, não havendo uma resposta definitiva, com toda a animação podendo ser vista como uma “caixa de areia” simbólica, uma obra de arte para estimular o máximo a imaginação e dar bases ao espectador para criar sua própria metanarrativa sobre os acontecimentos.

Para quem gosta de fantasia e ficção científica mais experimentais, esse clássico é um prato cheio, especialmente para os que buscam experiências estéticas complexas.

por Luiz Cecanecchia – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Sato Company.