
Correr, pular, inventar regras, rir em grupo. Antes das telas dominarem a rotina, brincar era, sobretudo, um exercício de liberdade. E é exatamente esse espírito que as brincadeiras indígenas ajudam a resgatar na infância contemporânea.
Muito além de passatempo, esses jogos fazem parte das culturas desenvolvidas por diferentes povos originários do Brasil. São práticas que nascem do cotidiano das comunidades, atravessam gerações e carregam histórias, valores e modos de viver.
Em muitos casos, as próprias crianças participam da criação dos brinquedos, utilizando elementos simples da natureza, como sementes, folhas e madeira.
No Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, esse repertório ganha ainda mais visibilidade. A data, que vai além de um marco simbólico, convida a sociedade a reconhecer a diversidade cultural brasileira e a refletir sobre o respeito às identidades e aos direitos desses povos. E o brincar surge como uma ponte poderosa entre cultura, educação e infância.
Brincar também é aprender
Se por um lado essas brincadeiras divertem, por outro elas ensinam. Ao incorporar jogos indígenas na educação infantil, escolas e famílias estimulam habilidades fundamentais, como coordenação motora, equilíbrio e raciocínio estratégico. Ao mesmo tempo, fortalecem valores como cooperação, coletividade e companheirismo.
Não por acaso, muitas dessas atividades já fazem parte do repertório de crianças brasileiras. Peteca, cabo-de-guerra e esconde-esconde, por exemplo, são mais do que brincadeiras populares, são expressões culturais que têm raízes em comunidades indígenas e tradicionais, ainda que nem sempre isso seja reconhecido.
Ao apresentar essas origens, o aprendizado ganha uma nova camada. As crianças passam a entender melhor a formação cultural do país e ampliam o olhar sobre diversidade, identidade e pertencimento.
Natureza, criatividade e liberdade
Nas brincadeiras indígenas, a natureza não é cenário, é protagonista. Vale imitar o movimento dos animais, observar o ambiente ao redor ou transformar qualquer objeto em brinquedo. A lógica é simples e poderosa, para brincar, não é preciso muito, basta imaginação.
Essa relação direta com o ambiente também estimula a criatividade e a consciência ecológica desde cedo. Em vez de consumir brinquedos prontos, a criança experimenta, cria, adapta. Aprende fazendo.
Em tempos de telas, um respiro necessário
Não é segredo que o tempo de exposição às telas tem crescido entre crianças e adolescentes. Nesse cenário, recuperar brincadeiras tradicionais deixa de ser apenas uma escolha pedagógica e passa a ser uma necessidade.
O livro “Brincadeira é coisa séria”, organizado por Bárbara Buck e Issaka Maïnassara Bano, com ilustrações vibrantes de Betão VidaCrew, parte exatamente desse ponto. A obra reúne jogos, histórias e memórias de diferentes comunidades tradicionais e reforça o brincar como linguagem, vínculo e construção de conhecimento.
Publicado pela Cortez Editora, o projeto nasceu da atuação do Grupo Aberto à Infância e Adolescência Técnicas Ocupacionais (Gaiato) em parceria com a Fundação Abrinq e funciona como um convite direto para educadores e famílias repensarem a infância, com menos telas e mais interação.
A seguir, separamos quatro brincadeiras que mostram, na prática, como diversão, cultura e aprendizado caminham juntos. Confira:
Queimada abelha-rainha
O objetivo é simples e estratégico: acertar a abelha-rainha do time adversário. A “queimada” acontece quando a bola atinge o corpo e não é defendida. Popular nas atividades do Gaiato, a brincadeira mistura cooperação, competitividade e muita energia, além de trabalhar coordenação motora e agilidade.
Jogo dos bichos
Em roda, cada participante escolhe um animal e diz em voz alta, sem repetir o dos colegas. O desafio começa quando o mediador chama dois jogadores, eles precisam lembrar rapidamente o animal escolhido pelo outro e falar primeiro. Quem acerta segue no jogo. Atenção, memória e raciocínio rápido fazem toda a diferença até restar apenas um vencedor.
Máquina de lavar roupa
Aqui, ninguém fica parado. As crianças formam uma roda de mãos dadas, enquanto uma fica do lado de fora como pegadora. Dentro da roda, um participante carrega um tecido preso à roupa, como um “rabo”. A missão do grupo é protegê-lo, girando e se movimentando sem soltar as mãos. Já o pegador tenta capturar o tecido. A dinâmica exige estratégia, união e muita agilidade.
Amandau Kyvykyvy
Movimento, imaginação e trabalho em equipe definem essa brincadeira. Cada criança escolhe ser uma fruta e forma uma fila, sentada, de frente para uma árvore. A primeira da fila se agarra ao tronco, enquanto as demais se seguram umas nas outras.
Um participante “compra” frutas, perguntando quais estão maduras. Apenas a última da fila pode dizer que sim. Quando isso acontece, começa o desafio: puxar a fruta sem deixar a corrente se desfazer. Se resistirem, o grupo vence. Se não, a fruta é levada.
Mais do que divertida, a atividade fortalece vínculos e incentiva a cooperação. Segundo o professor Billy Tupã Fernando, da Aldeia Boa Vista, em Ubatuba (SP), a brincadeira aproxima as crianças e reforça a importância de estarem juntas e fortes como uma raiz.
Cultura viva, todos os dias
Durante muito tempo, a cultura indígena foi retratada por olhares externos, como em “O Guarani”, “Iracema” e “Macunaíma”, sem refletir plenamente a diversidade dessas vivências. Hoje, valorizar práticas como as brincadeiras contribui para uma educação mais inclusiva e representativa. Brincar é formação, cultura e identidade, além de um direito essencial da infância.
Educa Mais Brasil promove inclusão educacional
Por pensar em uma educação ao alcance de todos é que surgiu o programa de bolsas de estudo Educa Mais Brasil. É possível estudar com descontos nas mensalidades desde a educação básica até o ensino superior, além de cursos técnicos e livres também.
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da Redação CFNotícias