Crítica: Depois da Caçada

“Quando a diferença de autoridade é muito grande, não existe espaço para as raízes do consentimento.”

A Universidade de Yale é uma das mais prestigiadas instituições acadêmicas dos Estados Unidos, tanto que cinco ex-presidentes se formaram lá. Assim, fazer uma narrativa de drama e suspense que se passa nessa localidade é discutir as tensões no núcleo intelectual do país.

Em “Depois da Caçada” (After the Hunt), Alma Imhoff ( (Júlia Roberts), uma renomada professora de filosofia em ascensão contínua, precisa lidar com um escândalo na instituição que põe sua carreira em risco, ao mesmo tempo em que é forçada a lidar com seu próprio passado sombrio.

Dois personagens são importantes para o desenvolvimento da história de Alma: de um lado, temos seu amante e prestigiado professor, Hank Gibson (Andrew Garfield), representando os valores clássicos da instituição. Do outro, Maggie Price (Ayo Edebiri), sua orientada, que alega ter sofrido abuso de Hank, simbolizando toda uma geração que vê de forma diferente as relações de poder.

Alma tem mais do que apenas dúvidas quanto em quem acreditar, já que precisa lidar com uma crise contínua de confiança que modela sua relação com a filosofia da ética que ela mesma ensina.

Discussões profundas de grandes pensadores ao longo de milênios são mostradas no filme  roteirizado por Nora Garrett e dirigido por Luca Guadagnino, com Alma buscando levá-las para seu lado mais abstrato e metafísico, assim como os professores tradicionais.

Sem perceber o quanto respostas fortes e coerentes para seus problemas do dia a dia estão na sua frente, vindas diretamente dessas discussões. Inclusive, ficando agressiva quando confrontada com a possibilidade dos textos filosóficos que tanto estuda serem retirados do plano etérico para o uso no cotidiano.

Assim, o longa discute tanto as disputas de autoridade no meio acadêmico, quanto as relações de abuso, quando nos leva a refletir o quanto o ambiente universitário – que deveria ser fonte de conhecimento e evolução contínua – se mantém como uma torre de marfim com linguagem inacessível para a sociedade. O que deveria transformar o mundo é distorcido, como pensamentos rebuscados que se distanciam da aplicabilidade e do entendimento comum.

Considero os diálogos entre Alma e Maggie os melhores, como se a professora, na verdade, conversasse com si mesma, tentando se convencer de nunca confrontar o mundo, de se focar unicamente nas aparências. Enquanto a aluna encarna o misto de energia da juventude com o sofrimento gerado pela submissão.

Andrew Garfield representa perfeitamente o lado profissional soberbo e o canalha sedutor. Enquanto isso, Julia Roberts transmite com exatidão a intelectual cheia de segredos que precisa de bajulação para se aceitar.

“Depois da Caçada” é um drama intenso cujas discussões filosóficas podem servir de introdução a alguns grandes pensadores, enquanto reflete sobre a forma como relações abusivas de poder são criadas.

por Luiz Cecanecchia – especial para CFNotícias

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sony Pictures.