A segunda temporada de “Dan Dan Dan” estreia com a confiança de quem sabe exatamente o que está fazendo — e, mais importante, com a maturidade estética e narrativa que transforma um anime promissor em uma obra digna de atenção crítica.
Ao contrário da estrutura mais tradicional da primeira temporada, que se mantinha fiel ao storyboard do mangá com mínimas intervenções, em “Dan Dan Dan: Evil Eye”, que chega aos cinemas com distribuição exclusiva da Cinemark, o que vemos é um uso muito mais livre e cinematográfico da linguagem audiovisual. Fūga Yamashiro, na direção, e Abel Góngora como co-diretor, demonstram um domínio impressionante de ritmo, atmosfera e mise-en-scène.
A nova ambientação, centrada em uma cidade termal repleta de misticismo, é construída não apenas com base no sobrenatural, mas ancorada em um contexto geológico e cultural que reforça o senso de lugar.

As lendas locais, os rituais e as práticas tradicionais se entrelaçam com uma crítica social contundente à influência corruptora de instituições religiosas que monopolizam o poder em comunidades pequenas. A família Kito, ao assumir esse papel de autoridade quase divina, expõe os riscos da fé institucionalizada quando convertida em instrumento de controle sociopolítico. A crítica está ali, latente, nunca panfletária, mas também nunca omissa.
Visualmente, a série atinge um novo patamar. A decisão de utilizar texturas diferenciadas entre personagens e cenários não é meramente estilística: ela acentua a tridimensionalidade emocional e física do espaço, criando uma moldura viva onde cada elemento visual contribui para o peso dramático da cena.
A paleta de cores — deliberadamente menos saturada — remete ao cinema clássico japonês, especialmente à filmografia de Akira Kurosawa (referência explícita, segundo os próprios diretores), criando um diálogo visual com uma tradição cinematográfica que valoriza o contraste, a sombra e a composição em profundidade.

A coreografia das cenas de ação merece destaque especial. Yamashiro e Góngora realizaram estudos sobre filmes de artes marciais para construir combates com fluidez, impacto e autenticidade coreográfica. As sequências não apenas impressionam pela técnica de animação, mas pela forma como traduzem emoção através do movimento. Há um cuidado quase coreográfico no uso da câmera, que flutua, gira, se aproxima e se afasta com precisão cirúrgica — resultado, sem dúvida, de um olhar atento ao cinema de ação.
O elemento do terror, por sua vez, é elevado a um novo nível. O fantasma “Olho Maligno” é apresentado com uma tensão crescente construída a partir de influências diretas do cinema de horror — Góngora se mostra especialmente hábil nesse aspecto, utilizando enquadramentos claustrofóbicos, cortes secos e uma trilha sonora pulsante que conduz o espectador por espirais de tensão quase sufocantes. É um terror de construção, mais psicológico do que visual, que se inscreve no corpo do espectador.
Narrativamente, o arco de Jiji é o ponto de inflexão mais significativo. De figura periférica, ele passa a um papel central, carregando em si a possessão espiritual que altera toda a dinâmica da trama.

A codificação cromática — vermelho para Okarun, roxo para Jiji — não só diferencia suas forças como simboliza suas naturezas opostas. O uso expressivo da cor reforça a identidade visual da temporada, enquanto sustenta a linguagem simbólica que corre paralela à narrativa.
A montagem desta temporada se liberta da cronologia linear do mangá e experimenta com idas e vindas, construindo uma progressão dramática mais densa e instigante. É uma escolha ousada que demonstra a confiança dos realizadores na sua capacidade de contar essa história de forma autoral, em vez de simplesmente adaptá-la.
No todo, a segunda temporada de “Dan Dan Dan” é um salto significativo de ambição e execução. Combinando elementos do cinema de terror, do drama social, do folclore e das artes marciais, Yamashiro e Góngora apresentam um anime que não apenas diverte, mas exige ser observado com os olhos do cinema: atento à linguagem, à simbologia e à mise-en-scène. É entretenimento de altíssimo nível, com um pé firme na tradição e outro na experimentação.
por Guilherme Soares – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Cinemark Brasil.