“Sobreviventes” é um filme interessante. Cria uma situação fictícia, mas que poderia ter acontecido seguramente nas entranhas malignas do período da escravidão no Brasil. O longa de José Barahona é de uma provocação muito sagaz. Traz recortes históricos importantes.
A trama mostra um suposto naufrágio de um navio negreiro próximo a uma ilha desconhecida e inabitada, onde senhores donos de escravizados, e um padre, amanhecem à beira da praia. Inúteis, não são capazes de buscar alimentação e água para sua própria sobrevivência.

De repente, encontram um escravizado sobrevivente, e não deixam de exercer seus lados cruéis de chupins, parasitas, logo se escorando em sua força e capacidade resiliente. Do outro lado da ilha, em um número muito maior, escravizados, agora libertos, dominam e escravizam os antigos senhores de escravos.
Ver uma liberta – pois nessa ilha ninguém é dono de ninguém, nem senhor de nada – dando uma bofetada na cara de uma náufraga senhora de engenho, é libertador, é uma vingança reprimida por séculos. A bofetada é deliciosa, se encaixa perfeitamente a época. Hoje o que se espera sentado é uma justa reparação histórica e o fim da idolatria à invasores disfarçados de heróis.

A fotografia em preto e branco incomoda nos primeiros dez minutos, mais ou menos, depois se torna essencial diante da escassez da ilha rochosa e sem diversidade biológica. Os contrastes, muitas vezes gritantes, proporcionados pela alta luminosidade solar, embelezam as imagens inspiradas em películas do início do século passado.
Há uma mistura de sotaques para o texto em português, que gera dúvidas quanto a ser proposital ou descuidado. Será que o português abrasileirado já era tão marcante naquela época proposta? É até interessante ver a divisão de classes estampada na forma como se fala o português. Um código funcional, mas que merecia um trato, mesmo que sutil, para não parecer cômodo.

O miserável instinto desumano e egocêntrico que faz com o ser humano sinta-se no direito de achar que o mundo gira apenas em torno do seu umbigo, de achar que só sua dor e seu prazer importam, é explícito, despudorado e inexplicável.
Com Roberto Bomtempo no elenco, “Sobreviventes” veio para provocar e perturbar o sossego dessa nossa acomodada sociedade brasileira.
por Carlos Marroco – especial para CFNotícias
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Pandora Filmes.